Sobre o Evento

Nesta edição, o II Encontro de Psicologia, Fenomenologia e Realidade Brasileira tem como proposta promover novamente um espaço de debates, questionamentos e interlocuções sobre a relação da Fenomenologia com a Psicologia. Nesse ano teremos em especial a interlocução com a Psicologia Cognitiva e as Neurociências, abordando a questão da consciência e o problema mente/corpo. Além disso, o evento promoverá a comemoração do centenário da obra “Ideias para uma Fenomenologia Pura e uma Filosofia Fenomenológica” de Edmund Husserl.

Mantendo a temática principal e os eixos temáticos que nortearam o Encontro de 2012 na UFTM – a fenomenologia, a realidade brasileira e a presença da psicologia fenomenológica no Brasil – o evento se amplia para novas e atuais possibilidades de discussão com a Psicologia Cognitiva, mantendo a Fenomenologia e a Psicologia como referência fundamental. Neste sentido, a problemática central que vai reunir estudos e pesquisas a serem apresentados será a discussão sobre a consciência, mente e corpo; conceitos tão atuais, mas, ao mesmo tempo, tão desafiadores devido a sua intensa complexidade. Para tal empreendimento procurar-se-á apresentar como a Fenomenologia e a Psicologia Cognitiva têm pesquisado e contribuído para o desenvolvimento da temática.

O tema desse evento parte do problema exposto na famosa citação de J. Searle: “como podem cérebros ter mentes?” Ainda, sendo essa uma enunciação que remete diretamente ao problema mente/corpo, um problema de “intratável mistério”. No tocante as investigações dos atuais do problema, pode-se dizer que são basicamente quatro os conhecimentos que têm contribuído diretamente a questão dentro das ciências cognitivas: as neurociências, a psicologia cognitiva, a filosofia da mente e a fenomenologia. Cada uma delas com uma abordagem específica, uma metodologia e uma ideologia, porém todas tentando “desvendar” o problema mente/corpo e o problema mente/consciência.

O evento tratará, então, de dois desses conhecimentos, a Fenomenologia e a Psicologia Cognitiva, que atualmente têm buscado aproximações férteis. Ao analisar a situação das pesquisas científicas, nota-se que a psicologia cognitiva, como aponta Varela, Thompson & Rorsch (1997), tem contribuído muito para os resultados objetivos, porém nada acerca o significado do ser humano, principalmente nas experiências vividas. Em contrapartida, a fenomenologia durante muito tempo não se interessou pelas novas tecnológicas e dos resultados científicos acerca o fenômeno da cognição. É importante destacar que foi com o filósofo e psicologista Maurice Merleau-Ponty entre os anos de 1930-1940 que possibilitou que a fenomenologia começasse suas investigações nas denominadas ciências cognitivas.

Também é interessante notar que foi a partir das contribuições de Merleau-Ponty que se formaram alguns grupos de fenomenólogos nas ciências cognitivas. Esses grupos, poucos ainda, têm tentado aproximar essas duas posições, mesmo que de maneira complexa e diversa, uma vez que são bem diferentes. O intuito deles é permitir a confluência de suas contribuições na ampliação do tema mente/corpo. A América do Norte (H. Dreyfus, D. Denett, F. Flores, D. Sudnow) a França (F. Varela, N. Depraz) e a Dinamarca (S. Gallagher, D. Zahavi), por exemplo, são alguns dos países que têm realizado grandes programas de investigação a partir da relação fenomenologia e ciências cognitivas. No Brasil essa discussão e pesquisa têm começado principalmente no Laboratório de Fenomenologia Experimental e Cognição, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sob a coordenação do Dr. William B. Gomes. Lá a proposta é desenvolver a chamada “fenomenologia experimental”, com os objetivos de explorar as contribuições do movimento fenomenológico para o aprimoramento científico da psicologia; ressaltar a importância da ética fenomenológica para a pesquisa; utilizar recursos da tradição fenomenológica para o desenvolvimento da psicologia experimental; promover o diálogo entre fenomenologia e psicologia da cognição; desenvolver técnicas e procedimentos para análise de dados qualitativos e, por fim, explorar possibilidades combinatórias entre dados qualitativos e quantitativos.

Assim é desafiadora a temática, porque como visto, ela tem apontado para um território fértil para pesquisas, estudos e para a formação do psicólogo. No essencial, trata-se de defender que há grandes possibilidades de pesquisa e resultados proporcionados pela fenomenologia que constituem evidência relevante em discussões internas a psicologia cognitiva, como também há resultados obtidos pela psicologia cognitiva que têm valor no horizonte da fenomenologia. Quer seja a Naturalização da Fenomenologia e a “Fenomenologização” da Psicologia Cognitiva.


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